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Os olhos que não dormem



O futuro é uma boa forma de expressarmos nosso estado de espírito. Pensar e imaginar o amanhã sempre foi o meio que encontramos para materializar os medos, expectativas e incertezas que vivemos no presente, não deixando também de ser um ideal que queremos alcançar ou um inferno que gostaríamos de evitar. Acima de tudo, eu acho que o futuro que escolhemos “prever” está nas nossas cabeças.

George Orwell pode não ter sido um oráculo de Delfos, mas o futuro que ele criou nos dizia muito mais sobre o seu presente do que se poderia esperar. 1984 é o ano e o título do livro onde se passa a história de Winston Smith. Num mundo onde o Socialismo está cada vez mais expandido e distorcido, a Oceânia (equivalente a nossa Inglaterra) existe sobre o controle total do Grande Irmão e de seu Partido. Winston não tem outra escolha senão ser mais uma das engrenagens dessa sociedade, onde pensar e sentir são os piores pecados que se pode cometer. Mas a sua história é a de alguém que silenciosamente luta contra esse terror e ele vai tentar recuperar sua vida e humanidade da maneira que puder, seja através de um caso de amor sem esperanças ou fazendo parte de uma revolução que talvez nem exista. Porém, não lhe resta muito além de esperança para fazer isso. Afinal existe um fato do qual não se pode escapar : “o Grande Irmão está de olho em você.”

É muito difícil pensar em 1984 sem notar o momento e por quem ele foi escrito. George Orwell foi testemunha participante de um momento em que as ideias em que ele acreditava sincera e intensamente estavam sendo completamente desvirtuadas. Como um socialista auto-proclamado dissidente, nada mais desesperador para ele do que ver suas crenças se manifestarem nos horrores do stalinismo e nas contradições do Partido Trabalhista Britânico. Projetando isso algumas décadas no futuro, no ano de 1984, temos uma mostra da grande desilusão do autor com o rumo de que sua época estava tomando.

Se a obra de Orwell é chamada de clássico moderno, não é por ser uma espécie de premonição na forma de livro. Mesmo sendo um trabalho de ficção, existe muita sensibilidade e honestidade da parte do autor, que nos diz muito sobre si mesmo através dos personagens e da narrativa. Além disso, só por ser um livro ainda tão fortemente vivo e presente na cultura de hoje demonstra que não somos completamente indiferentes aos medos e pensamentos do autor. Na verdade, dá até para dizer que compartilhamos alguns deles.

A maneira como a influência de 1984 ainda é sentida pode ser vista nos termos e expressões do livro que passaram a fazer parte, direta ou indiretamente, do dia-a-dia das pessoas. A ideia de duplipensamento (a contradição consciente) e o Grande Irmão (Big Brother) estão jogados no cotidiano das mais diversas formas: em reality shows, filmes, quadrinhos e conversas de bar. Não existe maior exemplo desse alcance do que no sucesso estrondoso do primeiro Matrix, que dentre muitas coisas se baseia muito nos conceitos de 1984, produzindo discussões e debates que só servem para provar o quanto o livro é atual e relevante.

Justamente por essa longevidade que o trabalho de Orwell pode tranquilamente (e com muitas recomendações) ser lido hoje ou amanhã. Se você quer uma excelente história, muito bem contada e construída, ou uma reflexão mais profunda sobre o tempo em que o autor viveu, o Grande Irmão te entrega essas duas coisas, sem nem precisar piscar.


1984, de George Orwell, pode ser encontrado em livrarias numa edição da Companhia das Letras. Esse texto foi baseado no posfácio de Thomas Pynchon, da mesma edição, para ser escrito.

Jonah Hex


No final do mês de Julho chegou às bancas o primeiro encadernado da série de quadrinhos do personagem Jonah Hex. As histórias de faroeste do pistoleiro são pouquíssimo conhecidas aqui no Brasil e essa primeira edição pode ser um bom começo para quem se interessar por esse tipo meio bizarro.

Criado na década de 1970, Hex entra naquele clássico arquétipo do cavaleiro solitário que chega numa cidade no meio do nada para fazer justiça com as próprias mãos. Pode-se até dizer que ele mistura isso com um pouco do que temos hoje com o Wolverine: alguém que tem que viver com as cicatrizes de um passado obscuro. E isso vale até literalmente falando, já que a principal característica de Jonah é uma cicatriz horrível que cobre todo o lado direito do seu rosto, presente de um desentendimento com índios apaches.


O encadernado “Jonah Hex: Marcado pela Violência” reúne as seis primeiras edições da revista mensal norte-americana. Publicada de 2006 até hoje nos EUA o material demorou bastante para chegar aqui, mas aproveitando o lançamento do filme do personagem (que, pelas críticas não parece valer tão à pena quanto os quadrinhos), a editora Panini tenta engrenar aqui um título de pouco apelo e popularidade. E, depois de ler a edição, eu gostaria muito que desse certo.

São seis histórias fechadas, completamente independentes umas das outras que colocam o protagonista de frente às mais diversas situações. O plot das edições não é nada revolucionário, muito pelo contrário: segue a fórmula já muito conhecida dos bons filmes de western, desenvolvida de forma direta e simples pelos roteiristas Justin Gray e Jimmy Palmiotti e muito bem desenhada pelo brasileiro Luke Ross. Então, não escapam os velhos clichês de xerifes corruptos, aldeias em perigo ou buscas por vingança, mas nada que torne a narrativa entediante de se acompanhar. Infelizmente, só dispondo de 25 páginas para cada parte de “Marcado pela Violência”, não há muito espaço para desenvolver os personagens secundários, que muitas vezes são jogados na história sem muita finalidade ou tem até certo carisma mas são pouco explorados. Talvez o formato de contos fechados não tenha sido muito ideal e depois, com arcos de histórias mais longos, esses defeitos possam ser corrigidos. O que fica para os holofotes principais é o próprio Jonah Hex, que se mostra como um homem cujo passado o endureceu, mas ao mesmo tempo conseguiu fazer dele uma boa pessoa. Esse passado, aliás, também poderia ser mais explorado nas próximas edições.


E aproveitando que o assunto é western, logo abaixo tem algumas sugestões de filmes, livros e quadrinhos do gênero, algumas delas provavelmente vão ganhar posts próprios no futuro:

Filmes: acho que esse é o mais fácil de todos. Dá para indicar facilmente dois diretores que fizeram clássicos do cinema. Primeiro tem Sergio Leone com a trilogia do dólar (Por um punhado de dólares, Por um punhado de dólares a mais e Três homens em conflito/O bom, o Mau e o Feio) e a trilogia da América (Era uma vez no Oeste, Quando explode a vingança e Era uma vez na América). E tem John Ford (acho que toda filmografia dele é recomendada) com Rastros de Ódio, O homem que matou o facínora, Rio Grande e muitos outros. Fugindo dessa linha específica de diretores, há muitos outros bons filmes para se buscar, como Butch Cassidy e Sundande Kid, Bravura Indômita, Os Brutos também amam e o mais recente Onde os fracos não têm vez.

Quadrinhos: pode ser meio estranho mas a Itália tem uma tradição muito forte em quadrinhos de faroeste (os fumetti). Aqui no Brasil é muito fácil encontrar esses títulos que dificilmente decepcionam na qualidade como Tex, Zagor e, especialmente Mágico Vento.

Livros: a série da Torre Negra de Stephen King funciona para quem gosta de visões diferenciadas sobre gêneros clássicos. Misturando o western de Sergio Leoni com a Terra Média de Senhor dos Anéis, King cria uma bela ambientação para a sua Saga do Pistoleiro, que consegue prender a atenção por sete livros que mais parecem tijolos de canteiro de obras.

Menos uma razão para odiar argentinos


Quando se pensa nas tiras de quadrinhos dos jornais, a primeira coisa que provavelmente deve vir a cabeça é um Garfield, Snoop ou um Hagar, o Horrível talvez. Mas até mesmo quadrinistas nacionais como a santa trindade dos anos 80, Glauco, Laerte e Angeli, fazem muito sucesso com um humor mais politicamente incorreto e porra-louca. Tem os que se tornaram clássicos como Calvin & Haroldo, que cativaram pelas inúmeras qualidades. Atualmente eu posso dizer que se há uma tira que merece o título de clássica, essa é Macanudo.

A produção de quadrinhos argentina é elogiada e reconhecida em todo mundo. Mesmo assim e com a abertura que o Brasil vem tendo nos últimos anos para uma maior variedade de obras, os trabalhos de escritores e desenhistas hermanos tem sido praticamente inexistente nas livrarias daqui. Isso mudou em 2008 quando a Zarabatana Books (uma das editoras mais corajosas no que diz respeito aos materiais que trás para cá) lança o primeiro volume das já mega aclamadas tiras do cartunista Liniers.

A escolha não poderia ter sico mais acertada. Se outros monstros do formato das tiras como Bill Watterson (Calvin & Haroldo) e Charles Schulz (Peanuts, ou Snoop para quem é do Brasil) acertavam pelos personagens incríveis, pela sensibilidade dos temas de que tratavam e, mais do que tudo, por darem aos seus quadrinhos um senso de humor universal que qualquer um pode compreender, o argentino Liniers pode ser considerado um grande sucessor dessa maneira incrível de contar histórias.

Chamar de incrível não é exagero porque Macanudo consegue ser muito com o mínimo. Tudo nas tiras transpira simplicidade e um humor nonsense muito divertido. Mesmo falando só de pinguins voadores, meninas com seus gatos e ursinhos de pelúcia e do dia-a-dia de gnomos, ainda tem espaço para inovações na disposição dos quadros ou na noção de perspectiva, tudo muito simples e funcionando perfeitamente sempre. Se isso tudo é só uma mostra do que a Argentina pode fornecer em quadrinhos, então que venham muitos outros Liniers para cá.


Macanudo é publicado diariamente na Folha de São Paulo e já tem três volume de suas tiras lançados pela Zarabatana. Muito material do autor pode ser encontrado disponível na internet.

Livros



Pois é....aranhas podem ser interessantes


Para algumas coisas é simplesmente impossível não dar atenção. Pessoalmente eu não consigo ignorar um filme de um diretor que eu gosto sendo lançado ou uma série boa estreando. E se é para colocar mais alguma coisa nessa lista, com certeza seria Neil Gaiman e qualquer coisa relacionada a ele.

Dele eu já falei um pouco no post sobre Henry Selick e “Coraline”, filme baseado num de seus livros. E a bibliografia de Gaiman (que vai desde quadrinhos até livros), tem muitos elementos recorrentes como relacionamentos familiares, formas de se encarar a morte, mitologia, etc. E mesmo com essa repetição, em nenhum momento ler algo do escritor de Sandman, “O Livro do Cemitério” e Orquídea Negra se torne chato ou passa uma sensação de deja vu.


E é para falar de “Os Filhos de Anansi” que Gaiman deve ser citado junto com toda sua importância como um dos grandes autores de sua geração. A história do livro segue a velha fórmula do protagonista (Charles Nancy) que não quer ser o herói de coisa nenhuma, mas que depois da morte do pai e do aparecimento surpresa de um irmão que nem sabia que tinha, ele vai ter que se entender com empresários corruptos, medo de contar em público e deuses africanos (?).

Ok, tá muito chamada de Sessão da Tarde, mas o britânico consegue transformar essa viagem de ácido numa narrativa que te faz passar pelas páginas e chegar ao final com um gosto de quero mais.

É usando um assunto que domina completamente que Gaiman consegue criar os personagens mais cativantes. Ainda que seja um loser com complexo de inferioridade com um irmão mil vezes mais fodão e um pai que por acaso é um deus-aranha tribal, Fat Charlie (apelido de infância que persegue nosso “herói”) não diminui no decorrer da história. Muito pelo contrário, e quando tem que enfrentar seus problemas e inseguranças que o personagem mostra realmente quem é O cara em “Os Filhos de Anansi”. Ou seja: aquele velho esquema de superação e crescimento que já foi visto milhares de vezes, e que na mão de qualquer outra pessoa daria em algo que nem mereceria atenção; não é o caso aqui.

Então, se você tem estado sem sugestões para bons livros ultimamente, aposte em “Os Filhos de Anansi” que não há chance de arrependimento. Melhor ainda: aposte em qualquer coisa com Neil Gaiman na capa, porque o resultado vai ser o mesmo.

Quadrinhos


Já faz um tempo que os roteiristas de histórias em quadrinhos começaram a querer dar um significado mais profundo para algo como a existência dos super-heróis. Desde a metade da década de 70 (ou antes até) que os caboclos voadores de collan nas HQ's norte-americanas começaram a ter uma importância mais verdadeira no universo em que existem. Não se trata mais de seres que salvam gatos da árvore, derrubam o lagarto gigante da semana e se limitam a receber só uma salva de aplausos de quem estava assistindo para mês que vem fazerem tudo de novo. Quando se começou a pensar no que pessoas assim significariam para o mundo é que os quadrinhos (ou arte sequencial para quem não gosta da expressão) tomaram um novo caminho.

É difícil apontar para um único divisor de águas nesse momento. Mais convencional seria falar de Whatchmen, que puxou os heróis de volta ao chão mostrando como eles afetavam o mundo ao redor e vice-versa. Marvels também valeria por mostrar o ponto de vista das pessoas comuns, seus medos e esperanças sobre os Vingadores, Hulk e Surfista Prateado que passavam por cima de suas cabeças todos os dias. Mas, se formos pensar dessa forma, até o papel Homem-Aranha na década de 60 já era criticado pelo Clarim Diário, jornal presente em suas próprias histórias. Assim, estabelecer marcos ou momentos de mudança fixos é muito, muito complicado, porém tentar encaixar essa ou aquela história como seguidora dessa nova tendência das HQ's não é tão difícil assim.


“O Reino do Amanhã” (Kingdom Come – DC Comics) pode ser classificado como produto dessa geração de escritores e desenhistas que pensavam tanto os quadrinhos quanto seus personagens de maneira diferentes. A minissérie em quatro edições mostra um futuro distópico onde Superman, Mulher Maravilha e todos os grandes representantes do que era ser um herói no princípio deram lugar a uma multidão de pseudo-heróis super-poderosos e igualmente violentos que não herdaram a preocupação de seus antecessores com a vida, afundando-se cada vez mais em lutas e destruição que acabam afetando os inocentes ao redor. Quando a irresponsabilidade e inexperiência desses novos super-seres causa um acidente catastrófico, a Liga da Justiça vê que é a hora de intervir como já devia ter feito há muito, porém esse é só o princípio do Armagedom que vai trazer o fim de todos os heróis ou da própria humanidade. E é dever do pastor Norman McCay ser a testemunha desse grande desastre e exercer um papel fundamental em sua conclusão.

Terminando de ler “O Reino do Amanhã”, não é tão simples entender porque essa é uma história tão importante e reverenciada. Claro que lá tem todo um ar meio épico, cenas de luta e batalhas lindas, além de ser muito divertido ver as versões futuristas dos grandes ícones da DC, mas até aí nada de tão especial assim. O que eu percebo no roteiro de Mark Waid é um forte sentimento de nostalgia e homenagem aos verdadeiros super-heróis. Num momento como a década de 90, em que a tendência das editoras era apostar em enredos mega violentos com personagens armados até os dentes, musculosos e muito mal desenhados, o “escoteiro chato” que era o Superman parecia não ter mais espaço para continuar sendo o que sempre foi, talvez deveria se entregar às mudanças. É inevitável ver as comparações que Waid quis passar na minissérie. Os tempos são outros, mas os símbolos e capas do passado são mais necessários do que nunca e é com Norman McCay que temos a principal ponte de ligação entre o leitor e a história. Ele dá o toque de humanidade como quem viu deuses andarem pela terra e agora tem que se ver de frente com o Apocalipse que eles mesmos causaram. Norman passa toda a sensação de impotência dos seres humanos que se veem encolhidos frente a poderes que não pode controlar, marcando os capítulos com as citações bíblicas que dão a contagem para o fim de tudo.

Além do pastor, muito destaque é dado ao Superman e Mulher Maravilha. Confesso que não gostei muito do azulão e da amazona nessa história mas consigo entender que a melancolia, frustração e agressividade dos dois era compreensível quando eles viam o mundo desabar ao seu redor não importa o quanto se esforçassem. Durante as edições mais razões são mostradas para os estados de espírito alterados de ambos, mas mesmo assim achei meio chato ver um Superman tão inseguro e desolado a toda hora.

Falar da arte mereceria um post a parte só para puxar o saco de Alex Ross. O artista tinha se destacado alguns anos antes em Marvels com seu estilo de desenho pintado de forma realística. O efeito que isso provoca dá humanidade aos personagens ao mesmo tempo que consegue engrandecer ainda mais os que já possuem força e velocidade sobre-humanas. Ross consegue dar dinamismo às suas pinturas ao mesmo tempo que enfia dezenas de personagens num mesmo quadro e se hoje ele se ocupa mais como capista, “O Reino do Amanhã” é uma excelente oportunidade de vê-lo trabalhando no miolo de uma revista.

Não sei se posso chamar “O Reino do Amanhã” de um verdadeiro clássico, acho que existem obras muito maiores em qualidade e importância do que esta. Mas ao mesmo tempo seria besteira ignorá-lo e chamá-lo de dispensável. Seja pela arte ou pelo roteiro, há razões de sobra para esse pequeno épico estar na prateleira de qualquer um.




Livros

As fogueiras de Noethampton

Mais uma recomendação bem rápida, dessa vez de um livro e, se convencer, de todos os trabalhos do escritor dessa obra.

Antes de qualquer coisa, uma verdade incontestável: Alan Moore é O cara. Acho muito difícil encontrar tanto hoje quanto no passado alguém que conseguiu alcançar um nível de qualidade tão alto numa quantidade tão variada de obras, que vão desde livros até (em maior número) quadrinhos.

Depois de ter escrito obras-primas como “Watchmen”, “V de Vingança”, “Monstro do Pantano” e várias outras, o inglês barbudo fez seu primeiro debute nos livros com “A Voz do Fogo” e acerta incrivelmente como não poderia deixar de ser.

Em “A Voz do Fogo” (Conrad Editora, 331 páginas, preço sugerido de R$42,00) temos 12 contos que se passam, cada um, em períodos históricos distintos e com personagens diferentes, abrangendo uma linha temporal de que vai de 4000 a.C. À 1995 d.C. Mas como não poderia deixar de ser, todos esses capítulos auto-contidos, apresentam elementos em maior ou menor evidência que criam o elo entre os contos. O principal desses é o lugar onde as tramas se desenvolvem: a cidade de Northamptonshire, onde vive o próprio autor, que busca deixar claro durante todo o livro o quanto o lugar está cercado pelo bizarro, mágico, incompreensível e também pela maldade e escrotidão das pessoas que ajudaram a fazer da cidade o que ela realmente é.

Então, é com fogueiras, cachorros negros de olhos vermelhos e pés para fora da terra que Moore mostra como tudo de sujo, errado e irracional no ser humano e sua relação com o inexplicável serviu para estabelecer o que hoje é Northampton. O autor chega a se incluir na última parte do livro, mostrando que sua vida também não deixa de fazer parte dessa grande história que constrói em pouco mais de 300 páginas.

“A Voz do Fogo” é para ser lida várias e várias vezes não só pela sua grande qualidade mas também pela riqueza de particularidades e sutilezas na escrita. O primeiro capítulo, por exemplo, conta a história de um menino do neolítico após ser abandonado pela sua tribo narrada em primeira pessoa. E não é nada menos que impressionante ver todo o trabalho que o autor teve para construir a maneira como uma criança do ano 4000 a.C. enxergaria o mundo e se expressaria com relação a isso. Difícil de entender? Então leia um trecho de “O porco do bruxo”:

“E em cima de eu está muitas feras-de-céu, grandes, cinzentas. Devagar é se movimentam, que elas nem está com uma força em elas. Pode que elas querem comida, é como eu, quer o mesmo. Uma de elas está com vazio em barriga agora, cabeça de ela arranca e sai flutuando. Ela corre mais rápido para trás, quer pegar cabeça. Em baixo de céu é grama e bosque, vai até muito longe, é onde eu vejo outra colina. Depois tem só árvores pequenas que crescem onde mundo acaba.”

“A Voz do Fogo” é um livro para que merece ser dada uma chance. Não entra no lugar comum do mainstream e não tem medo de ousar dentro da sua proposta. Como não poderia deixar de ser quando se fala de Alan Moore, fica aqui uma muita justificada referência.




Quadrinhos

Sim, ele usa cueca por cima da calça. Mas no fundo é um cara legal

Acompanhar quadrinhos é algo muito complicado. Se você faz isso no Brasil é ainda pior.

A palavra difícil, com certeza é a que mais se escuta: difícil de saber como, o que e quando começar a ler; difícil de comprar pelos preços muitas vezes pouco atrativos; difícil de encontrar dependendo do local onde se mora... No geral, é muito triste dizer que os contras estão ganhando dos prós.

Mas sempre que puder, vou tentar dar algumas dicas para quem está interessado em ler alguma coisa relacionada a essa mídia que apresenta uma variedade grande de materiais disponíveis, basta mesmo uma ajuda para saber onde procurar.

Histórias em quadrinhos de super-heróis são, definitivamente, as mais populares entre os leigos no assunto. Se alguma comparação é válida, os heróis com seus colãs e poderes são uma espécie de equivalente àquele cinemão hollywoodiano de blockbusters e filmes de verão com que estamos acostumados. Mas é preciso deixar claro que dizer isso não é o mesmo que tentar diminuir esse gênero. Muito pelo contrário na verdade, porque nem toda revista do Batman, por exemplo segue esse padrão, e se seguir não quer dizer que pode ser criticada justamente por isso.

Para que tanta enrolação? Só para poder dizer que, nesse mês de Maio está chegando às bancas a edição 90 da revista Superman (84 páginas, R$6.50, periodicidade mensal). Esse número apresenta duas coisas interessantes: a primeira parte (de seis) de uma minissérie que reconta a origem do homem de aço, então se você só conhece a história do surgimento do super bem por alto, essa é uma boa chance de saber mais sobre o seu surgimento; o resto da revista apresenta uma história curta da Supergirl e, mais interessante, uma série de fichas técnicas sobre personagens (alguns conhecidos, outros muito pouco) que são e serão muito importante para os próximos números, assim, é um bom resumão para o que está por vir.

A história principal mesmo é a Origem Secreta, que fala mais uma vez dos primórdios da vida de Clark Kent em Smallville e o início de sua transformação no maior herói da terra. Apesar de recontar pela milésima vez uma história que todo mundo conhece, até eu (que já devo ter vista umas 874 origens diferentes para o personagem) me empolguei com o roteiro simples mas muito cativante de Geoff Johns (do qual ainda vou falar muito no futura) e a arte lindíssima e narrativa eficiente do desenhista Gary Frank. Como já disse antes, ser uma típica e convencional história de super heróis não é sinônimo de baixa qualidade. Na verdade é o inverso: esse é justamente o principal atrativo. Vale muito apena para velhos e novos fãs.

Já as fichas servem mais para quem começou a ler a pouco tempo e servem como uma boa base para os próximos arcos de histórias das revistas mensais regulares que são todas publicadas nesse mesmo mix (no original norte-americano: Superman e Action Comics que vão se alternar de mês em mês; além da já citada Origem Secreta e da também minissérie World of New Kripton – totalizando três publicações por edição brasileira).

Bom, não sei se é o bastante de pontos positivos para compensar os negativos. Apesar de um preço alto para o número de páginas vendido (serão75 a partir dos próximos números) e dos problemas de não ter lido histórias anteriores, espero que a qualidade da edição por si só sirva para fazer vista grossa a essas questões.


Quadrinhos

A long time ago, in a far far away galaxy...

Acho que posso dizer que sou fã de Guerra nas Estrelas desde sempre... O.K., sempre é exagero, mas eu me lembro de ainda no primário ficar tentando desenhar o capacete do Darth Vader que estampava o box de VHS (nossa, como me sinto velho falando isso) da trilogia original. Assim, não tem como ter um lugar como esse para escrever sobre o que quiser e simplesmente não falar de Star Wars.

Como a maioria dos fãs mais xiitas eu amo de paixão os três clássicos – Uma Nova Esperança, O Império Contra-Ataca, O Retorno de Jedi – e ignoro honrosamente a nova trilogia com seus Jar Jar Binks, MidClorians e Anakin Skywalker chorão. Porém, eu nunca dei muita atenção ao chamado universo expandido da franquia, que desenvolvia histórias completamente novas dentro da realidade de Star Wars se baseando direta ou indiretamente nos filmes através de livros, games e histórias em quadrinhos. E foi com essas últimas que eu vi o que estava perdendo até alguns dias atrás.

No começo de 2009, a editora On Line passou a lançar mensalmente nas bancas seu próprio título de quadrinhos de Star Wars. A cada mês as edições traziam, compiladas em um único mix, quatro revistas do universo expandido: Dark Times, Knights of the Old Republic, Legacy e Rebellion. Atualmente a publicação já se encontra no número 17, dando continuidade às suas séries.

Em Abril desse ano, a On Line passou a investir mais na linha Star Wars publicando encadernados com arcos completos de cada título em edições únicas. As compilações, por enquanto são só para Dark Times e KotOR, com os 5 e 6 primeiros números das séries respectivamente. Ou seja, se você (como eu) não se interessou em comprar desde o começo os mix mensais, essa é uma boa oportunidade de começar a acompanhar.

Quanto às histórias, achei os dois volumes muito bons. KotOR se situa num passado muito distante da trilogia clássica (3.964 anos antes da Batalha de Yavin 4, quando Luke Skywalker explodiu a Estrela da Morte), e é o que menos necessita de que se tenha visto algum dos filmes previamente. Como o subtítulo deixa a entender, é o começo da jornada do padawan Zayne, que se vê inesperadamente como um fugitivo de seus próprios mestres após ter tido o azar de estar no lugar errado, na hora errada. Já Dark Times tem mais relação com as produções por se passar entre os episódios III e IV da hexalogia. Nela, temos o general e mestre Jedi Dass Jenir que tenta sobreviver após o Império ter tomado conta da galáxia, ao mesmo tempo que procura ajudar seu companheiro de guerra Bomo Greenbark a reencontrar sua mulher e filha capturadas como escravas. Muito interessante também nessa série é mostrar um pouco mais da postura e personalidade de Darth Vader frente às ordens do Imperador e sua insatisfação com os rumos que as coisas tomaram após ter caminhado para o Lado Negro.

Em fim, para mim valeu muito apena ter dado uma chance para essas publicações da On Line. As edições tem um bom tratamento gráfico e editorial, com papel de qualidade e notas de rodapé quando necessárias. O único porém é que não foram reproduzidas as capas das edições norte -americanas no miolo da edição. Uma falta que só acrescentaria qualidade aos volumes. Fora isso, não faltam razões para a espera pelos próximos encadernados. Que eles não parem por aí!
“Dark Times: Caminho para Lugar Nenhum” tem 116 páginas custando R$19,90
“Knights of the Old Republic: O Começo” tem 140 páginas custando R$23,90


 
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